Foto: A tribuna RJ 
O retrato da trágica chuva que desabou em Maricá, na segunda-feira, ainda estava estampado no rosto assustado da pequena Kathelen, de 4 anos. “Tio, tem muita água aqui, estou com medo”, disse ela, montada na garupa da bicicleta da mãe, a dona de casa Josiane Lopes, 25. As duas enfrentaram a água fétida e imunda que alagou o condomínio Minha Casa Minha Vida, onde moram há seis meses. Desesperadas, queriam chegar em casa na tentativa de resgatar alguns pertences. “Não sei o que fazer, acho que perdi tudo. E já não tinha quase nada. Não sobraram nem as roupinhas da minha filha”, emendou Josiane.

Mais de 5,3 mil pessoas ficaram desabrigadas no Estado do Rio por causa das chuvas e outras 11,3 mil, desalojadas. Em Maricá, são pelo menos 2 mil. O estado voltou atrás e refez as contas das mortes: foram duas — uma em Saquarema e outra em Silva Jardim —e não cinco, como informara antes.

O prefeito de Maricá, Washington Quaquá (PT), disse ter conversado por telefone com Dilma Rousseff e ela permitiu a liberação de FGTS para que os moradores atingidos pela enchente consigam se restabelecer. A prefeitura informou que moradores que perderam seus bens pessoais terão direito a sofás, geladeiras, armários, camas, TVs e outros objetos. 

Quaquá voltou a culpar o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) pela tragédia, por não haver permitido uma obra de dragagem no local, e disse que vai processar o governador Luiz Fernando Pezão. “O que ele (Pezão) e o Inea estão fazendo com Maricá é um crime. Vou estudar uma forma de processá-lo criminalmente”. E completou: “Ele nem me telefonou para se solidarizar. Ainda estou indignado”. Na véspera, ele havia disparado contra Pezão, em um vídeo que circulou nas redes sociais. 

O governador não quis comentar as declarações de Quaquá. Já o Inea confirmou que fizera vistoria na Lagoa da Barra, para analisar a possibilidade de abertura de um canal para o mar, conforme solicitação do prefeito, para evitar o transbordamento em caso de cheia. O pedido foi negado pelo instituto, seguindo o parecer dos técnicos. Somente um dia após a enchente, o Inea deu sinal verde para a obra.

A Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, do Ministério da Integração Nacional, informou que acompanha a situação dos municípios atingidos pela chuva no estado. Maricá e Araruama decretaram estado de emergência. Cachoeiras de Macacu e Saquarema estão em estado de alerta.

Outras cidades atingidas que ainda contam os prejuízos são Tanguá, Silva Jardim, Itaboraí e São Gonçalo. A Marinha enviou 50 fuzileiros e dez militares da Capitania dos Portos para ajudarem na remoção das vítimas em Maricá. A Cruz Vermelha Brasileira também enviou ajuda.

Nesta quarta-feira moradores entravam e saíam do condomínio com sacolas, aparelhos de TV, ventiladores e outros pertences. Nas ruas do entorno, muitas famílias enfrentavam problemas. Tânia Almeida, 58 anos, mora há cinco na Rua R, a 200 metros do condomínio. Trabalha hospedando cães e, na hora da enchente, retirou, sozinha, 15 animais da casa, que virou uma piscina. “Preferi perder tudo a deixar os cães morrerem afogados. Meu prejuízo com TV, geladeira, móveis é de uns R$ 10 mil. E vou ficar sem renda mensal de R$ 3 mil com a hospedagem.”

Além dos três presos terça-feira, a PM prendeu quatro por saque em apartamentos do Minha casa, Minha Vida. O 12º BPM dobrou o efetivo de 30 para 60 policiais.

Fugindo da seca, o paraibano Cláudio Lima, 43 anos, deixou o Nordeste. Imaginou encontrar aqui o paraíso, mas não uma tromba d’água que acabaria com seu sonho. “A água que faltava na Paraíba quase destruiu a minha vida”, revoltou-se Cláudio ao ver o filho querendo achocolatado de outra criança.

Tatiana da Silva, 18 anos, outra paraibana, está grávida e sua casa ruiu na comunidade do Recanto. “Não tenho R$ 250 para a passagem de volta. A água levou tudo, até documentos”, disse ela com os olhos marejados e a voz embargada.

ONDE DOAR
A Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos e a Defesa Civil já entregaram 1 mil colchonetes, 550 kits de cama e mesa, 1 mil cobertores e 300 kits de material de limpeza aos desabrigados de Araruama, Saquarema, Maricá e Silva Jardim. 

MARICÁ
No município, os donativos podem ser entregues nos seguintes endereços: Escola Municipal Levi Ribeiro (Rua B, s/n, São José Imbassaí), Centro de Educação Infantil Valéria Passos (Rua Deoclécio Machado, s/n, Jardim Atlântico, Itaipuaçu) e todos os Centros de Referência da Assistência Social (CRAS). Principais itens: fraldas e produtos de higiene pessoal.

Fonte/texto: O Dia