Foto: Jorge Bispo
A leveza de ouvir o SILVA me conduz a um estado emocional indescritível, sem exagero já ouvi 'Feliz e Ponto' mais de mil vezes e sinto a mansidão de quem quer apenas viver poesias de amor. Assim alimento minhas melhores utopias, me faz sonhar com um mundo tolerante, com um mundo de abraços fraternos. Me sinto longe do mundo que aí está quando entro na alma da canção, me sinto como se tivesse na "Floresta Encantada", em Lumiar, na casa e pousada do meu irmão de caminhada Marcio Local, que também é um cantor e compositor incrível.

Sinto-me como se a água tocasse meu corpo na beleza de quem percorre o seu caminho, sem queixas, o rio não tem rédeas, mas, tem a imensa habilidade de contornar as pedras que encontra em seu percurso ao ouvir o Silva, o 'Clube da Esquina', reacende em meu peito com a delicadeza do Beto Guedes, com o romantismo do Flavio Venturini e toda poesia que o 'Clube da Esquina' apresentou pro mundo através de seus integrantes, que muito honraram a música brasileira, por isso, ainda acredito em movimento.

A música popular brasileira vem apresentando tanta gente boa nesse momento, embora aparentemente dispersos um do outro, o cenário é de muita beleza, de muita qualidade musical e poética. Estamos tendo a lição que o Brasil não é o Rio de Janeiro, coisas maravilhosas aconteceram, acontecem e acontecerão fora daqui, a presunção do carioca que se julgou e se julga por décadas detentor do melhor que a arte tem a oferecer já era um mundo, sempre aconteceu pelo Brasil a fora. Por mais presunçoso que um carioca queira se manter, sem respeitar a arte que não é dele, a represa rompeu com Tiago Iorc, e nesse clima vem o Silva e uma outra dezena de grandes nomes.

O carioca ainda não aprendeu que o Rio não é apenas praias e Bossa Nova, o Rio tem muita arte fora do circuito elitista individualista. Vejo aqui da minha São Gonçalo, inúmeros talentos com possibilidades de fazerem parte da cena carioca, no meu Rio de Janeiro tem muitos Brizolões, têm muitas favelas, muitas cadeias e também muita delicadeza, e com esse olhar delicado olho pra fora do Rio com muito respeito, apenas querendo ser "Feliz e Ponto".

Por Rafael Massoto, compositor, poeta e produtor cultural.