Mano Brown | Foto via Correio de Uberlândia. 
Vêm da periferia as vozes mais insurgentes desse Brasil no meio artístico. Não me expresso quando alguns dizem que os artistas estão calados, pois não sei de quais artistas essas pessoas esperavam ouvir a voz num tom político, ético, coerente e em nome do povo. Em 2017, os caminhos são outros. Exige que a informação seja buscada na fonte. O Mano Brown já chegou na cena sendo uma voz extremamente política no início dos anos noventa, precisamente em 1993. O Emicida já chegou dizendo a que veio no primeiro disco em 2009. O Criolo, em seu primeiro disco em 2006, mesmo com um discurso muito político, suavizou ao demonstrar muita fé no ser humano. Aos meus olhos, cito esses três nomes por perceber neles uma contundência, mas sei que muitos são politizados, éticos e lutam pelo povo.

No período da ditadura, sambistas clássicos como Zé Keti, Aluisio Machado, Noca da Portela, Paulinho da Viola, entre outros, foram considerados subversivos, ameaçando o que o poder imposto impunha, como ordem, a rapaziada da MPB, termo excludente usado pra definir uma turma Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, foram também bravos guerreiros. O Raul Seixas foi uma voz incrível da música brasileira, consigo dentro de um pequeno texto citar tão poucos. A mente começa a trazer tantos nomes, Zé Ramalho, uma das principais vozes da região mais artística do Brasil, com "Admirável Gado Novo", em analogia ao "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley. Em meu texto estou me referindo apenas aos cantores, sei que choraram Marias e Clarices nesse solo, sei que existiram bravas guerreiras jornalistas, sei que existiu Leila Diniz, Zuzu Angel, Olga, inúmeras que mereciam aqui citação.

Tratar desse tema em poucas palavras é uma difícil missão, então voltamos ao Brown, ao Emicida e ao Criolo, desses três, o Criolo foi o único a não enfrentar, depois da imensa visibilidade, um problema com a polícia. Sei que os três amargam no cotidiano preconceito por darem voz a periferia, são vozes periféricas que estão abrindo as portas pra outras vozes. Então, quando um grande produtor de uma grande gravadora diz que o Brasil vive um momento ruim na música, entendo que os cifrões estão na fala dele e um tapa olhos no rosto. O Brasil é a fertilidade viva, inúmeros talentos encantam o Brasil sem passarem perto da percepção do Rick Bonadio. O Rick é pago pra pensar em um astro que aceite as regras do mercado, que esteja disposto a ser uma marionete. As gravadoras piram com o Racionais MC'S, pois fazem o que querem, sem depender das regras mercadológicas. Em sua cola, vieram Emicida e Criolo, momentos diferente do Hip Hop Brasil, com o discurso afiado mantido. O Brasil tem, sim, vozes que não se calam. O povo é capaz de balançar o teto do planalto, o povo é capaz de fazer a classe política temer, a exemplo de 2013.

Tem gente que sabe que manifestação não é micareta. Eu sigo, daqui, afiando a minha baioneta e agradecendo ao Pedro Paulo, ao Leandro e ao Kleber por manterem firme a esperança que a música é capaz de mudar o mundo. O poder da música continua forte, a visão limitada dos que falam sem pesquisar não diminui o impacto da porrada.

Por Rafael Massoto, compositor, poeta e produtor cultural.