Marisa Letícia, ex-primeira-dama do Brasi, faleceu ontem, por morte
cerebral | Foto: Divulgação
Hoje, amanheci diferente. Olhei pra minha mãe de uma outra forma, escutei a voz dela melhor, fui pra rua e parei ao lado de duas vizinhas minhas. Fiquei cerca de trinta minutos ali conversando. Todas estão na mesma faixa etária de Dona Marisa, comovidamente, quis pescar dentro do olhar delas o que cada assunto poderia ter em comum com a Dona Marisa.

O Puff, o cachorro aqui de casa, está muito doente e durante um tempo elas falaram dele e do quanto é triste ver ele sofrendo. Ele está com câncer na boca, já passou por uma cirurgia e aos dezessete anos pode não suportar uma nova cirurgia. Fomos orientados a cuidar dele em casa e casa com amor, é lar. Deixei o assunto correr enquanto eu prestava mais atenção em seus olhares. Num momento, Dona Nica nos relevou adorar Rock e falou: "Rock mesmo é Metal, pode ir ali olhar os meus CD'S".

Notei, ali, uma declaração de vida, um querer bem viver. Dona Nica é esquerdista, temos afinidades. A Leginia falava sobre a dificuldade de lidar com o interfone recém instalado em nossa vila. Rindo, ela dizia que trocava o telefone pelo interfone "atendo um na hora de atender outro", comentou sobre o seu novo trabalho, mesmo sendo aposentada. Eu conheço a Leginia desde que cheguei na terra, observei nela a filha, a mãe e a avô.

Emocionado, entrei pra escrever a minha coluna semanal aqui no blog A Política RJ. Olhei pra minha mãe cortando legumes pra fazer o almoço, olhei pro Puff, vi tanta tristeza nele. Me acomodei pra fazer uma das coisas que amo e aqui escrevendo com o coração apertado, penso na Dona Marisa Letícia, penso na Marisa Letícia do cotidiano, penso nela sendo avó, sendo a mãe vitoriosa que foi, me vem a mente semelhanças da Dona Marisa com a minha mãe, que também começou a trabalhar com nove anos de idade. Pensei em tudo que elas enfrentaram por seus filhos, e hoje Dona Marisa chama o meu olhar. Hoje, Dona Marisa me coloca pra olhar com ternura pra minha mãe, porque me faz pensar que no lugar dela, poderia ser a minha mãe, me faz pensar na dor inominável dos seus filhos e do seu marido. Penso na minha mãe, professora e sacoleira, penso em Dona Marisa, operária, militante e guerreira, enquanto a minha mãe vendia roupas, Dona Marisa costurou a primeira bandeira do PT.

No meu olhar, Dona Marisa é tão humana quanto Dona Nica, quanto Leginia, minha mãe e Dona Sônia, que acaba de chegar aqui em casa pra passar roupa. E numa conversa rápida sobre a morte da Dona Marisa, me disse que as pessoas andam sem sentimento me fez lembrar do meu parceiro MC Marechal na sua música "Viagem", que diz "...Essa porra é um cemitério ao relento, são vários morto-vivo caminhando sem sentimento...", o nome da música é até propício pro momento. Dona Marisa não era uma máquina, Dona Marisa era uma mulher e uma mulher incrível. A Galega do Lula, por isso, nesse momento, mais do que nunca na história da Dona Marisa é necessário amor e respeito.

Por Rafael Massoto, compositor, poeta e produtor cultural.