Foto: Divulgação/Facebook
O doce encanto de quem passava e tornava o mundo melhor a beleza tão singela que despertava ternura. Até hoje trago Viviane no meu olhar. É difícil acreditar que alguém tão jovem tenha tido a vida interrompida por um disparo de arma de fogo dentro da sacristia de uma igreja, no local em que se dispunha a prestar um serviço comunitário como quem percebe que foi privilegiada ao poder cursar uma faculdade e busca devolver pra sociedade aquilo que pôde ter, consciente de que o acesso ao ensino é negado a uma grande parcela da população. Então Viviane não se furtava de contribuir pro mundo ser melhor, ainda mais sabendo que a sua profissão toca a alma das pessoas.

Quando o assunto é Viviane, a minha mente se confunde entre passado e presente, pois, de alguma forma, é possível senti-la presente. É difícil descrevê-la como a psicóloga Viviane, pois enxergava nela a menina Viviane e, portanto, quero apenas falar do quanto eu percebia de sensibilidade nessa menina linda. Por algum motivo, não consigo pensar no autor do disparo embora entenda que todo rigor da lei deva ser aplicado ao crime por ele cometido.

Viviane morava no bairro em que vivi boa parte da minha vida, na Brasilândia, e exatamente na rua que mais frequentei. Então vi a Viviane durante a adolescência dela, bem antes dela conhecer o elemento que a fez uma vítima fatal, transformando-a num corpo sem vida no chão de uma sacristia. Nunca tive nenhum contato visual com esse elemento, embora ele tenha interrompido a trajetória terrena dela o que o coloca nessa história. Me recuso a falar dele pois algo em mim quer falar de amor.

A minha cabeça gira, penso no quanto é claro ouvir a voz de um cristalino sentimento dizendo que uma mulher merece ser feliz, tendo à sua frente um caminho livre. Como eu queria poder voltar ao passado e desviar qualquer mal da direção da Viviane! Tanta meiguice naquele olhar tinha que estar aqui nesse momento, tornando mais terno esse ambiente em que vivemos. Penso nas consultas que Viviane teria dado com tanto amor, no quanto de bem ela tinha pra ofertar pras pessoas, no quanto o coração dela tinha força pra fazer o Sol nascer na vida de um homem que a soubesse amar, na força do meu pensamento enquanto escrevo. Consigo respirar fundo e recriar a Viviane aqui na minha frente e peço perdão a ela por não ter feito nada pra protegê-la, peço perdão por nunca ter dito a ela o quanto ela era encantadora. No momento que eu poderia ter dito, meu Deus! Quanto eu queria ser capaz de dar uma segunda vida pra ela! Enxergo um pouco da Viviane em toda mulher que posso enxergar. Como eu queria ser a mão que segura qualquer mão que se levanta contra uma mulher! Nunca haverá razão pra agressividade. Toda mulher merece liberdade. Um não deve gerar no máximo saudade. Não temos a Viviane mais entre nós.

O que me resta é diariamente ver a dor de uma família que luta por justiça, apenas justiça. Uma luta movida por amor, que exclui sentimentos negativos; uma luta pra honrar a vida que Viviane viveu e a vida que Viviane deveria ter vivido. Dez anos se passaram mas pra família de Viviane hoje ainda é quatro de abril de dois mil e sete. Pros pais da Viviane deixo aqui o meu mais forte abraço.

Justiça para Viviane!

Por Rafael Massoto, compositor, poeta e produtor cultural.